Trilogia A3 · Editora Neve Preta · Selo Subterrâneo

Conteúdo adulto

Esta obra contém cenas de sexo explícito, linguagem adulta e temas de não-monogamia consensual.

Para continuar, confirme que você tem 18 anos ou mais.

Não tenho 18 anos — Sair

Você está lendo o início da Trilogia A3 — uma história sobre desejo, excesso e consequência. Se fizer sentido para você, a sequência completa está no box.

Trilogia A3 · Editora Neve Preta · Selo Subterrâneo

Livro 1

O Incêndio

L. Santhiago

Nota do autor

Se você busca uma leitura descompromissada, está no lugar errado. Esqueça a passividade. Esta obra não é um entretenimento fácil, mas sim uma escavação. Ela não se entrega à superficialidade; foi tecida em camadas e em confusões de pensamentos entre as linhas. Se ler apenas as palavras escritas, perderá o essencial. O núcleo, seu verdadeiro significado, habita no silêncio, nos vazios e nas sugestões. Portanto, aceite o desafio: leia além das palavras. Leia o que está ausente. A verdadeira história está no que não foi escrito.

Aviso de conteúdo

Este livro é uma obra de ficção que aborda temas de sexualidade adulta, autodescoberta e relacionamentos não convencionais. Contém cenas de sexo explícito, linguagem adulta e discussões sobre bissexualidade, não-monogamia consensual e identidade de gênero. Recomendado para leitores maiores de 18 anos.

Prólogo

Antes do Fogo

Toda chama começa com uma faísca invisível, mas nem toda faísca pede permissão para acender. Às vezes, ela surge em silêncio, sem alarde, em um pensamento que você tenta afastar e não consegue, em um toque que permanece na pele um segundo além do necessário, em uma lembrança que insiste em respirar onde não deveria. Para mim, começou assim, de um jeito pequeno e íntimo demais para ser dividido, como um incômodo quase discreto, uma pergunta que eu evitava formular inteira, um desejo que preferi fingir que não existia.

Tentei apagar, como se tenta apagar algo que ainda não ganhou forma, mas algumas faíscas não desaparecem quando são ignoradas; elas permanecem, quietas, alterando a temperatura das coisas ao redor, fazendo com que certos gestos pareçam mais intensos, certas ideias mais próximas, certos limites menos nítidos.

Algumas histórias não começam no início. Elas começam quando o calor já existe, quando o prazer ainda parece escolha e não necessidade, quando a curiosidade se mistura ao risco sem provocar recuo. Eu poderia dizer que tudo começou com um toque proibido ou com a primeira noite a três, e isso soaria simples, quase organizado demais, mas não seria exato. O verdadeiro começo foi mais sutil: o instante em que o medo deixou de impedir e passou a excitar, quando a ideia de ir além não afastava, mas chamava, como se fosse um convite à honestidade e não um desvio.

Naquela época, eu entendia o desejo como algo direto, quase funcional, um vazio pedindo para ser preenchido, sem perceber ainda como ele cresce com o que se oferece, como se alimenta de pele, de suor, de olhares que demoram, da sensação de ser vista, desejada, reconhecida. Alimentamos sem pensar em medida, sem pensar em retorno, acreditando que o corpo suportava mais do que realmente suporta.

Julien dizia que o fogo era só energia, transformação, e eu gostava de ouvi-lo falar assim, porque fazia tudo parecer consciente, escolhido, maduro. Nós nos transformamos, é verdade, ainda que não soubéssemos exatamente quando isso começou a acontecer. Do casal que se encontrava no silêncio, passamos a buscar estímulo, a novidade, a próxima cena, a sensação de algo sempre prestes a acontecer, e eu também queria, eu também sentia aquele brilho diferente depois, aquela expansão que fazia o corpo parecer mais vivo, mais verdadeiro, como se algo em mim tivesse sido finalmente nomeado.

Houve um período em que tudo parecia funcionar. Em que a intensidade nos aproximava. Em que o riso vinha fácil, o toque tinha urgência e o mundo parecia maior, mais aberto, mais generoso. Houve noites em que me senti inteira como nunca, convencida de que aquela expansão não nos afastava, mas nos revelava, e que o "nós" era capaz de atravessar aquilo sem se perder.

As mudanças não chegaram de uma vez. Vieram por acúmulo, pelo "só mais uma vez", pela naturalidade com que novas possibilidades surgiam, pelo modo como o desejo encontrava sempre um caminho para se reorganizar. O corpo aprendia novas formas de responder, enquanto outras iam ficando menos evidentes, sem que isso parecesse, naquele momento, um problema.

O sexo entre nós dois continuava existindo, ainda havia intimidade, ainda havia carinho, mas algo nele começava a ocupar um lugar diferente, difícil de explicar, como se precisasse de mais contexto ao redor para se completar. Ele dizia que era fase, dizia que eu também queria, e eu queria, fui eu quem abriu a porta primeiro, acreditando que "mais" significava apenas ampliação, nunca perda.

O primeiro desconforto não veio em forma de conflito. Veio no silêncio. No silêncio, depois de uma noite intensa demais, trancada no banheiro, observando o próprio reflexo, sem saber exatamente o que me incomodava. No silêncio, ao deitar ao lado dele e sentir o peso do corpo, sem conseguir localizar a presença. No silêncio que surgia entre convites, quando algo em mim demorava um pouco mais para responder, como se o corpo tivesse aprendido a hesitar antes da vontade.

Por fora, parecíamos modernos, resolvidos, seguros das próprias escolhas; por dentro, algo começava a se mover fora de ritmo, não por ciúme, nem por culpa, mas por uma ausência ainda sem nome.

Não escrevo para justificar o fósforo, nem para apagar o que veio depois. Escrevo para entender, passo a passo, como o calor foi ocupando espaços demais, como aquilo que começou como expansão passou a exigir atenção constante, como o "nós" foi se esticando até ficar difícil perceber onde eu terminava.

O fogo aquece antes de queimar, e quase ninguém reconhece o momento exato em que o calor deixa de ser conforto e passa a ser aviso.

Incêndios nunca são de repente.

Eles só parecem.

— Liz

Capítulo 1

O Incêndio do Último Ano

A Combustão Sexual

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Aviso ao leitorAs cenas a seguir contêm conteúdo intenso e explícito. Se preferir, você pode avançar sem prejudicar a compreensão da história.

Já estávamos ali há horas, o corpo pesado de suor, e o tesão ainda parecia não ter fim, como se o tempo tivesse se dissolvido em suor e desejo. Havíamos nos perdido em camadas de prazer, ansiosos por aquele encontro que planejávamos havia meses. Eu me vi presa entre as pernas dela, a boceta colada na dela, quente, pegajosa, roçando boceta contra boceta, quente, úmida e viscosa, um atrito que me fazia latejar como se meu corpo inteiro fosse uma ferida aberta.

Estávamos deitadas na cama redonda do motel, e eu olhava para o espelho no teto, assistindo tudo como um filme pornô sujo: eu, nua e descabelada, me contorcendo em um ritmo forte, nossas pernas entrelaçadas como tesouras enferrujadas. Ela, com aquela beleza bruta e corpo macio, a pele sedosa como veludo molhado, os cabelos lisos e brilhantes caindo sobre os ombros, chupava o pau dele até o talo, engolindo inteiro, gemendo ofegante enquanto engolia aquele mastro rígido, veias dilatadas, inteiro na boca.

Ela usava aqueles lábios carnudos para sugar como se fosse instinto puro, visceral pra caralho. Com toda a experiência dela, roçava a boceta carnuda e quente na minha, enquanto sugava ele com uma força que me deixava tonta. Aquela imagem me mandava calafrios de prazer pelo corpo inteiro, e ela usava aqueles lábios carnudos como se tivesse nascido para aquilo, mas mantendo um ritmo constante, sem errar o passo. Na época, eu achava que aquilo era só tesão acumulado, mas agora sei que era o começo do abismo, o ponto em que o prazer virava vício e nos engolia sem misericórdia.

De repente, veio a liberação súbita, tão forte que senti um soco no útero, uma explosão que me rasgou por dentro: calor extremo, uma onda de choque devastadora que me acertou como um soco no útero, seguida por espasmos que contaminavam cada nervo. O quarto ecoava com os sons molhados e obscenos das nossas bocetas se chocando, e eu gritava de prazer, gritos fortes, altos, intensos, sem medo, sem vergonha, sem pudor. Minha sensibilidade ficara tão intensa que minha única reação fora me desvincular daquela posição o mais rápido possível; parecia que minha boceta estava literalmente em chamas, ardendo como um incêndio no centro do meu prazer. Hoje entendo que aquilo não era só gozo — era o corpo implorando por mais, mesmo quando já estava destruído, o excesso que nos afastaria depois.

Lisbeth, então, simplesmente mandou Julien deitar no centro daquela cama redonda. Ele obedeceu, o pau babando, gotas de pré-porra escorrendo da cabeça grossa e rosada. Ela calmamente colocou o preservativo nele, com um pouco de dificuldade, depois pegou o tubo de lubrificante e lambuzou tudo, exageradamente, espalhando como se quisesse marcar território. Perguntou provocativamente: "Não era isso que você desejava?", e se levantou, virando-se de costas para ele, mostrando aquela bunda desenhada por um artista, redonda e firme. Agachou-se de costas, posicionando o cu na cabeça do pau dele, e a expressão no rosto dele era de um viciado implorando pela próxima dose.

Simplesmente, ela agachou de uma vez, enfiando aquela cabeça rosa latejante no cu dela, e deu um grito de dor e prazer misturados. Mas, sabendo o que fazia, começou a cavalgar em um ritmo frenético. Segurava as nádegas dela, ajudando e forçando-a a sentar-se com força, os dois em outra realidade, suados e grunhindo como animais, o cheiro de sexo e suor invadindo o quarto como uma névoa grossa.

Nesse momento, eu me levantei e peguei o vibrador, indo até lá com ele na velocidade máxima, cravando-o no clitóris dela enquanto ela chupava meus seios com a mesma intensidade que havia usado antes. Ela continuava incansável, já tinha gozado várias vezes — havíamos transado em várias posições, depravadas e sujas. Ela era uma puta na cama, gostosa e sem limites, como eu e Julien gostávamos; nos sentíamos à vontade com ela, e o prazer era levado à estratosfera, um excesso que, na época, eu não via como perigoso, mas que nos levaria ao ponto de ruptura.

Ela começava a dar indícios de que ia gozar mais uma vez, como uma atleta no pico, mas com o auxílio de Julien, que a segurava com aqueles braços fortes. Subia e descia, arrombando o próprio cuzinho na rola grossa dele, sem dó, sem medo, sem receio. Seus músculos em várias partes do corpo, principalmente na região pélvica, começaram a ter contrações visíveis, aumentando o ritmo a cada descida e subida, de forma intensa. Sua respiração acelerava, os batimentos cardíacos disparavam, a pressão sanguínea subia como um foguete.

Olhei para Julien; ele estava em estado animalesco, como um selvagem seguindo puramente os instintos, querendo mais prazer. Eu sabia que ele adorava sexo anal, como aquilo o fazia se sentir poderoso, dominador. E só pausava para bater com força, deixando as marcas dos cinco dedos nas nádegas dela, quando ela pedia: "Me bate mais forte, bate, não tenha dó. Eu sou uma puta que gosta de apanhar, eu fiz vocês esperarem, eu mereço ser punida, eu mereço, eu mereço." O som dos tapas estalava no ar, ardendo na pele dela, misturando-se aos grunhidos roucos e ao barulho molhado dos corpos se chocando.

Lisbeth começava a demonstrar tensão muscular aumentando; ela simplesmente gemia alto, pedindo para ele fodê-la como me fodia. "Quero ser a putinha de vocês para sempre", dizia ela. "Me come, me fode, arromba meu cu, deixa ele marcado para sempre com o seu pau." Antes do clímax final, ela berrou — acho que mais alto que eu —, "Eu vou morrer, eu vou morrer!", e saiu bruscamente do pau dele, tendo a mesma reação que eu tivera: o corpo convulsionando, destruído, lágrimas misturadas ao suor escorrendo pela pele formigando.

Sua boceta e clitóris estavam enormes, endurecidos e sensíveis ao toque, os lábios da boceta dela parecendo asas de borboleta de tão inchados. Julien, ainda em transe, foi até o banheiro tirar o preservativo, bebeu água da pia mesmo e lavou o pau ali. Voltou andando com aquele mastro duro ainda, eu e ela nos olhamos e já entendemos que tínhamos uma missão: ele tinha que jorrar aquela porra para fora, as bolas inchadas de sêmen.

Como era sua preferência, ele gostava de gozar no sexo oral. Ficamos ajoelhadas na cama, ele em pé na lateral, e começamos a chupá-lo mais uma vez naquele dia, nos revezando e nos beijando com o pau dele entre nossas bocas. Ele perguntou quem ia se alimentar agora. Lisbeth não parou, continuou sugando forte, só levantou a mão como se dissesse "eu". Eu disse: "Quero ver você tomar tudinho, sem desperdício."

Quando senti as pernas dele tremerem em mini-espasmos, já sabia que o sêmen estava prestes a jorrar. Ela continuou ordenhando-o, e quando eu chupava os mamilos dele, ele gemeu alto, rouco, animalesco, forte, áspero. Pediu com pressa para ela abrir a boca toda; ela simplesmente abriu, e ele não pensou duas vezes: enfiou todo o pau lá dentro, segurando a cabeça dela para não fugir. Gozando litros, com a cabeça do seu pau dentro da garganta dela, os olhos dela saindo lágrimas enquanto gemia como se ainda estivesse saindo mais, e ele continuava segurando com força.

Ela começou a ficar roxa, e fui eu quem a mandou soltá-la. Ele disse: "Sem desperdícios." Naquele instante, o prazer era cru e sujo, mas agora vejo como aquilo nos levava ao excesso, ao ponto em que o desejo virava algo forte que nos consumia por dentro.

A partir deste ponto, a leitura retoma o conteúdo seguro.

O Último Ano

✦

Olhando para trás com a clareza que só o tempo traz, uma dor já entendida latejando no peito. Depois de Lettice, nós queríamos mais, e marcamos um encontro com Lisbeth alguns dias depois. Nosso sexo atingiu outro patamar. Ela já era uma mulher mais velha em comparação com Lettice, e a transa encaixou perfeitamente — forte, intensa, sem pudor, quase sem limites. Na época, aquilo me enchia de um fogo que latejava pelo corpo inteiro, suor escorrendo pelas costas como uma promessa de mais caos, mas agora vejo que foi o início do fim.

Depois disso, não só queríamos mais, mas também tínhamos certeza do que desejávamos e gostávamos: algo mais denso, voraz, que fazia o coração disparar e o corpo tremer. Como nossa relação era saudável, com muito afeto e amor entre nós dois — toques suaves nos momentos quietos, olhares que diziam tudo —, não buscávamos conexão sentimental, amor ou estabilidade com as outras. Queríamos prazer físico puro, deixar os desejos descontrolados tomarem conta, uma fome que nos devorava por dentro. Não era só eu; éramos nós. Ele embarcou nessa comigo, e eu via o prazer nos olhos dele, um brilho que me excitava tanto quanto o ato em si, deixando-me latejante, o corpo implorando por mais. Parecia que ele ficava cada vez mais excitado também, como se estivéssemos nos alimentando mutuamente.

Mesmo com a experiência positiva com Lisbeth, que era prima da minha prima, ou seja, praticamente da família, paramos de chamar gente que a gente conhecia. Por alguns motivos. Primeiro, para não nos decepcionarmos como aconteceu com Paola. Mesmo depois que eu e ela tivemos uma conversa sobre o bolo dela, nossa amizade nunca mais voltou a ser como antes. Ela explicou que simplesmente arregalaria, que congelara de medo de prejudicar nossa relação.

"Liz, eu congelei na hora. Achei que uma transa a três poderia bagunçar tudo, que talvez não estivéssemos alinhados nessa dinâmica."

Contou brevemente que já havia participado de um ménage com um casal de conhecidos, e tivera uma experiência ruim: o casal a deixara de lado, avulsa e nua na cama, enquanto transavam só entre si. Sentira-se como um objeto completo, e a dinâmica era complicada — proibida de falar com o marido, só com autorização para executar o que a mulher dizia, sem contato visual nem beijos com ele.

"Achei que tinha superado isso, mas no último minuto veio à tona e me deixou insegura pra caralho"

Eu senti um aperto no estômago, como se o ar rareasse no quarto. No final, nos entendemos, mas a dor daquela conversa ainda ecoava em mim, uma ferida sutil que eu não via na época, mas que nos afastaria de conexões familiares, um sinal ignorado no calor do momento.

Outro caso foi o da favorita da academia, que marcava conosco, dizia que estava tudo certo, mas, no dia anterior, sumia ou desmarcava, alegando outro compromisso. Eu entendia que ela simplesmente nos enrolava — talvez não por mal —, só por receio de dizer não. Hoje percebo que aquelas hesitações eram sinais que eu ignorava, o corpo ainda tomado pelo tesão, sem espaço para o raciocínio, uma cegueira que nos empurrava mais fundo no abismo.

Chegou um momento em que, para não sofrermos com os "bolos", começamos a marcar encontros redundantes, principalmente nos fins de semana: caso uma não aparecesse, tínhamos outras; se as duas viessem, desmarcávamos alguma delas por algum imprevisto inventado. Aquilo parecia prático na época, uma forma de proteger o desejo latejante que nos consumia, tornando-nos mais frios e calculistas.

Por essas e outras, priorizamos as mulheres do aplicativo, com poucas exceções fora dele. Nos primeiros meses, dois ou três, já havíamos acumulado mais de 700 ou 800 mulheres no Instagram. Criamos até uma planilha que Julien controlava, para gerenciar nossa agenda, saber e lembrar com quem tínhamos compromisso, e consultar antes de agendar com outra.

No começo, saíamos com duas a três mulheres por semana; de quinta a domingo era dia, dificilmente não tínhamos encontros, só quando estávamos doentes ou muito cansados. Com o tempo nesse mundo, fomos conhecendo diversas mulheres: jovens, mais maduras; experientes ou quase inexperientes. Confesso que dávamos preferência a mulheres com apetite sexual e estilo semelhantes ao nosso — vorazes, com sexo mais agressivo, mais visceral, que deixava marcas na pele e ecos no corpo. Alguns encontros foram incríveis, outros nem tanto, mas não tivemos nenhum "date" com problemas mais sérios.

Às vezes, transávamos com mulheres que faziam sexo fofamente, queriam amorzinho; isso não nos atraía, um contraste morno que nos deixava vazios depois. Curtíamos o momento, mas não dávamos preferência por sair novamente. Isso é importante: não nos importávamos em sair quantas vezes fossem necessárias, só deixávamos claro que nosso lance era puramente casual, sem intenções maiores. Claro que isso nem sempre era escutado com clareza por parte delas.

Saímos com mulheres de todas as raças, tamanhos, cabelos; se achávamos bonitas, não dizíamos. Às vezes, até nem bonitas achávamos, mas já estávamos ali, com tesão latejando nas veias, o ar carregado de expectativa. Alguns casos desses nos surpreendiam com um sexo bom, do jeito que gostávamos; se tivesse anal, então, Julien sempre elogiava, por mais ausência de feição que elas tivessem — ele só queria gozar e se satisfazer, e eu via aquilo como parte do jogo, sem julgar na época, mas agora entendo o vazio que aquilo plantava, uma semente de afastamento que crescia devagar.

Outras eram mandonas, queriam dirigir o ato sexual sem deixar fluir naturalmente: "Faz isso, agora muda de posição, agora de ladinho, agora em pé", etc. Outras só queriam um Daddy para sair e pagar tudo, já que Julien sempre pagava tudo sem pestanejar as contas de bares, restaurantes, baladas, motéis, hotéis e viagens. Elas queriam passear, mas não se empenhavam na hora de transar, e ficavam fazendo exigências — uma queria um restaurante específico, outra uma hidro, outra uma piscina; quando gozavam, vestiam a roupa e diziam "Vocês me levam em casa?" sem se preocupar se já tínhamos acabado ou não. Então, começamos a deixar esse tipo de perfil de lado, o corpo ainda ansiando pelo prazer, porém a mente já filtrando o que nos consumiria depois, um filtro que eu não percebia como uma defesa.

Nesse último ano, saímos com mais de 100 mulheres; não sabemos ao certo, e muitas delas repetiam algumas vezes; as de que gostávamos, não colocávamos limite, seguíamos saindo. Até elas começarem a namorar, a se casarem ou ficarem grávidas. Muitas delas realmente viraram amigas, outras sumiram, mas fazíamos questão de sermos amigos e mantermos um relacionamento próximo, até gostávamos disso, as risadas compartilhadas em festas, um laço que disfarçava o excesso.

Essas mais próximas estavam sempre no nosso círculo: festas, viagens, baladas etc. Julien e eu adorávamos essa vida de amizades, sexo selvagem, interação com diversas mulheres, principalmente sexualmente. Nosso gosto foi evoluindo ao longo do tempo. Primeiro, saímos a três; aí começamos a fazer umas festinhas em nosso apartamento e motéis com mais duas, mais três mulheres.

Logo, começamos a viajar com mais quatro, cinco e até seis mulheres. E sim, todos transávamos loucamente! O suor, os gemidos, o caos dos corpos se misturando, cheiro de desejo no ar, na época, aquilo me preenchia como uma onda irresistível, o corpo vibrando em êxtase, mas agora sei que era o vício nos levando ao afastamento, ao ponto de ruptura que eu não via chegar, uma tristeza que só entendo hoje.

Nós adorávamos essa vida, nos sentíamos o máximo, invencíveis no nosso mundo de prazer, mas não sabíamos o que isso traria, um eco que só ressoa agora.

O Conquistador

✦

Alguns meses depois, quando Lisbeth já havia se tornado uma presença constante, não só nos lençóis, mas também nas nossas vidas, como uma amiga que entendia o caos sem julgar, nos encontramos de novo em casa, após mais um encontro que nos deixara exaustos e satisfeitos.

Mal havíamos nos recuperado daquele encontro com Lisbeth, suados e ofegantes, quando as mensagens do Instagram começaram a inundar nossas redes. Mulheres que nos adicionavam no Instagram após um like casual ou uma troca no aplicativo, competindo abertamente por atenção:

RobertaEu sou a que vai te fazer esquecer as outras, topo tudo sem limites

DeniseDeixa as amadoras pra lá, eu sei como deixar um homem como ele implorando por mais.

MicheleEu adoro foder com vocês!

RenataVocê não faz ideia do que eu seria capaz de fazer com você se me desse uma noite inteira, sem relógio nem regra. Depois disso, ia ser difícil voltar pra "vida normal" com qualquer outra.

FláviaJá imaginei tanta coisa com você que, se eu começasse a listar, talvez você achasse errado… e, ainda assim, ia querer testar uma por uma. Me chama quando quiser ver até onde vai a sua moral.

PatríciaEu posso ser o tipo de erro que você não admite em voz alta, mas repete em silêncio sempre que pode. Me usa como quiser hoje, depois a gente decide se conta pra alguém ou não.

YasminEu estou sempre disponível quando quiserem. Só chamarem.

Na época, aquilo me excitava, um formigamento no corpo que misturava orgulho e tesão, como se fôssemos um casal intocável no centro de um furacão. Mas agora compreendo que era o início da guerra, elas se digladiando nos bastidores digitais, transformando nosso prazer em território de brigas, sem que eu percebesse o quanto aquilo nos corroía por dentro.

Julien lia aquelas mensagens com um sorriso discreto, lisonjeado pelo elogio constante: "Você é o homem com quem toda mulher sonha, educado e bruto na medida certa", guardando para si o brilho nos olhos que aquilo lhe dava. Ele não comentava muito, mas eu via como se sentia, querido, sedutor, um rei validado pela admiração alheia, como se cada palavra fosse uma dose que o enchia de poder. Naquele momento, eu achava que era só parte do jogo, o corpo ainda vibrando do prazer compartilhado, mas hoje entendo que era a semente daquilo que o alimentava mais do que eu.

Alguns minutos depois, eu e Lisbeth estávamos sentadas no tapete da sala, com as taças de vinho pela metade apoiadas na mesa de centro. A música ambiente era baixa, apenas o suficiente para preencher o silêncio confortável entre nós. Lisbeth girou a taça entre os dedos, olhando para o corredor onde Julien tinha acabado de passar rumo ao quarto. Ela sorriu de canto, um sorriso que não era de uma predadora, como o das outras, mas de alguém que apreciava o que via.

— Sabe, Liz… — ela começou, com a voz rouca e tranquila, como se estivesse confessando algo guardado há tempos. — Eu preciso falar. O Julien… ele tem um negócio diferente.

Eu me ajeitei na almofada, sentindo aquele misto familiar de orgulho e curiosidade, o corpo ainda formigando dos resquícios do prazer.

— Diferente como? — perguntei, embora já soubesse a resposta.

— Ah, não sei explicar direito. — Ela riu, tomando um gole do vinho. — Ele é charmoso num nível perigoso. Não é só beleza. Beleza tem em todo lugar. Mas ele tem esse… borogodó.

Eu ri. A palavra era antiga, mas perfeita.

— É, eu ouço muito isso. As outras mulheres acham o mesmo. Ele me mostra, às vezes, aquelas mensagens que chegam aos montes no Instagram, umas competindo abertamente, tipo: "Eu topo o que nenhuma outra aguenta, me deixa te mostrar como é de verdade" ou "Deixa as fraquinhas pra lá, eu sou a que vai te deixar louco de vez". Elas disputam ele como se fosse um prêmio, marcando território digital.

— Não, mas é sério — Lisbeth insistiu, inclinando-se na minha direção como quem conta um segredo. — Ele tem esse estereótipo todo de homem bruto, sabe? A barba, o corpo grande, essas tatuagens fechando o braço e o peito que dão um ar meio agressivo… Mas aí ele abre a boca e se torna um príncipe. Educado, gentil, inteligente, culto… Te olha nos olhos quando fala. Isso desmonta qualquer mulher.

Eu assenti, lembrando de como ele conduzia as conversas no bar, fazendo com que cada mulher se sentisse a única pessoa interessante no recinto. Na época, eu via aquilo como nosso superpoder conjunto, mas agora percebo que era a semente da validação que o nutria, fazendo-o se sentir querido e sedutor, um rei no nosso mundo de prazer. Ele lia aqueles elogios nas mensagens, ficava lisonjeado, com um sorriso discreto no canto da boca, mas não falava mais a respeito disso, só guardava, como se aquilo o preenchesse de algo.

— É exatamente isso — concordei. — Ele sabe jogar. Quando ele quer, quando está interessado e flertando… ele vira outra pessoa. Eu vejo, Lisbeth. Em muitas ocasiões, eu fico só assistindo. É ele quem conquista. Ele tem o papo, o jeito e o timing certos. As meninas chegam armadas, e cinco minutos depois estão comendo na mão dele.

— E não é só o papo — Lisbeth interrompeu, com um brilho malicioso nos olhos. — É que ele sabe o momento exato de virar a chave. Uma hora ele tá lá, todo cavalheiro, perguntando sobre a sua vida… e na outra, ele solta uma baixaria no ouvido que faz a gente tremer a perna. Ele sabe falar putaria na hora certa.

Senti um calor subir pelo pescoço. Era verdade. Julien tinha o domínio da linguagem suja.

— Elas ficam loucas com isso — comentei, tentando manter o tom casual, mas sentindo o peso da verdade. — A grande maioria se sente profundamente atraída por essa dualidade. O bruto e o educado no mesmo pacote.

Lisbeth suspirou, encostando a cabeça no sofá e olhando para o teto, como quem lembra de uma cena específica.

— E depois do sexo, então? — Ela soltou o ar devagar. — Aí é covardia, Liz.

— Covardia?

— É. Porque o homem transa bem, num nível que eu nunca vi igual. — Ela voltou a me olhar, séria agora. — Eu já estive com muitos caras, você sabe. Mas o Julien… ele parece uma máquina. Ele tem uma resistência, uma força… mas, ao mesmo tempo, ele cuida. Ele é bruto na pegada, te joga na cama, te prende, mas é gentil no toque. Ele não tá ali só pra gozar e acabar. Ele faz a gente se sentir mulher.

Ela pausou, buscando a palavra certa.

— Prazer e satisfação, sabe? De verdade. A gente sai da cama se sentindo… vista. Saciada. É raro isso.

Fiquei em silêncio por um segundo, absorvendo o elogio. Era a validação máxima do meu marido. Lisbeth me dizia que ele era o amante perfeito. Eu deveria estar radiante. E estava. Porém, lá no fundo, uma pontada fina e gelada me espetou.

Ele é uma máquina. Ele conquista. Ele faz todas sentirem.

Se ele era tudo isso para todas… o que sobrava que era só meu?

Aquilo era o primeiro sinal, de uma rachadura sutil na nossa relação que eu sentia no corpo antes da mente, ainda não queria admitir. Afastei o pensamento rápido, tomando um gole longo do meu vinho, e sorri para ela.

— Eu sei. Eu tenho sorte.

— Muita — Lisbeth brindou no ar com a taça vazia. — Vocês são um casal lindo. Mas ele… olha, ele é um evento à parte.

✦   ✦   ✦

A história continua

O que acontece depois
não para aqui.

A rachadura que Liz sente neste capítulo vai se aprofundar.
O excesso vai cobrar seu preço. Ninguém sai ileso.

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